A quem direi da minha tristeza...


Quando amanheceu, vi o céu cinzento. Não sei dizer se era mesmo o céu, prenunciando chuva, ou se era minha alma de óculos escuros.

Não ouvi o canto dos pássaros. Também não sei dizer se eles realmente haviam emudecido ou se meus ouvidos haviam se fechado a qualquer som que os pudesse despertar.

Abri a janela, mas as portas do meu coração continuaram cerradas. Venezianas abaixadas, nada que permitisse entrar algum raio de luz.

Um imenso palco de tristeza. Desde algum tempo, ela começara a rondar minha casa íntima.

Sorrateira, bateu no portão e lhe permiti a entrada. Pensei que logo se iria, depois de ligeira visita. Ledo engano.

Ela resolveu se hospedar. Acomodou-se.

Assim agiu porque lhe ofereci uma almofada de veludo para se recostar no caríssimo sofá dos meus sentimentos.

Desde as primeiras horas de sua chegada, eu a tratei como a um ilustre hóspede. Servi-lhe tudo do melhor que havia guardado dentro de mim.

No cálice da emoção, sorveu o elixir do meu encanto pela vida. Tudo bebeu, até quase nada restar.

Em taça de cristal, deliciou-se com os frutos da minha alegria, maduros, doces. Até se serviu da calda cremosa dos sorrisos, misturada com as gargalhadas espontâneas dos dias vividos.

E a fui deixando ficar. Finalmente, passei a alimentá-la com os condimentos amargos da minha mágoa, a química das dores, dos reveses, tudo servido nos pratos de porcelana da alma outrora feliz.

Então, desejei que alguém soubesse da presença dessa hóspede, que se tornara incômoda, indesejada.

Queria que alguém me desse a fórmula para dela me libertar.

Procurei amigos, conhecidos e lhes falei a respeito dela.

Espantaram-se que eu, tão corajoso e bem disposto sempre, pudesse assim me manifestar.

Não entenderam meu apelo, nem a dor que parecia me sufocar por dentro.

Deixei que lágrimas espontâneas brotassem, como cascata, dos meus olhos.

Senti o coração apertar, lembrando de tantos abraços de felicidade de tempos anteriores. Agora, mais do que nunca, eu precisava de compaixão, de colo.

Pensei em quantos, em idêntica situação, terão pensado que nada mais valia a pena e desistiram da vida.

Mas eu, eu não quis desistir. Jamais sairei da vida, antes que seja determinado pela Lei Divina.

Aproveitarei até o último suspiro.

Olhei para o Alto, como em busca da Divindade que parece eu alijara de minha alma. E pedi: Socorre-me.

Lembrei do Galileu que se apresentou como o Bom Pastor, Aquele que guarda as Suas ovelhas.

Aquele que busca a ovelha perdida, mesmo que se encontre entre os espinhos da culpa, do desamor ou da desesperança.

Orei, dizendo palavras que nem lembro. Simplesmente saíam do meu coração pela boca.

Então, o céu se tingiu de cores, a sinfonia da passarada encheu os ares. Abri olhos e ouvidos, retirei as cortinas do coração.

Era isso o de que eu precisava: mudar o plano mental. Unir a minha alma ao Superior. Impregnar-me de luz.

Abri os abraços. Abracei a vida e minha voz cantou:

Bom dia, vida! Aqui estou para mais um abençoado dia de experiências.

Redação do Momento Espírita Em 25.11.2021.

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